inflação e dívidas forçam troca de luxo por presente simbólico

As compras para o Dia dos Namorados de 2026 impõem um desafio duplo ao consumidor brasileiro: contornar o asfixiamento do orçamento familiar e driblar a inflação elevada em itens tradicionais da data, sem deixar de demonstrar afeto. Um levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) com a FIA Business School aponta que, embora a intenção de presentear não tenha desaparecido — sete em cada dez pessoas planejam ir às compras —, as escolhas migraram para opções mais acessíveis, convenientes e de apelo simbólico.

Para este ano, a projeção é de que a data movimente R$ 22,1 bilhões em bens e serviços e que o gasto médio fique em torno de R$ 238 por consumidor. O cenário, no entanto, é desenhado por um ambiente econômico mais restrito do que o do ano passado.

Mais dívidas, menos dinheiro no bolso

A restrição orçamentária é o principal vetor de mudança no comportamento de compra atual. Segundo o Ibevar, em 2014 o endividamento comprometia 38% da renda e, hoje, se aproxima da marca de 50%, próximo à máxima histórica.

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Apesar do aperto financeiro, o apelo emocional da data prevalece sobre a cautela para uma parcela significativa da população. Os dados apontam que 28% dos consumidores admitem que vão gastar além do que podem, enquanto 31% pretendem adquirir presentes mesmo com contas em atraso.

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A inflação do romance

A pressão sobre o bolso é agravada por uma assimetria inflacionária que penalizou os presentes clássicos. Nos 12 meses encerrados em abril de 2026, a inflação geral acumulada foi de 4,4%, mas os itens de alta procura para a data registraram altas de cinco a seis vezes a média nacional. As joias subiram 26,1%, os chocolates em barra e bombons avançaram 22% e o segmento de joias e bijuterias acumulou alta de 20,3%.

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Segundo os pesquisadores do Ibevar, o fato de os presentes de maior carga simbólica serem exatamente os que mais encareceram cria o que o estudo define como “a combinação mais desafiadora da data”.

Flores online em alta e a retração do luxo

A adaptação a essa nova realidade financeira reflete nas categorias mais buscadas. A pesquisa projeta para este ano um salto de 36% no interesse por flores online. O segmento se consolida como o de maior crescimento, impulsionado pela entrega no mesmo dia, pelos preços mais acessíveis e pela praticidade do ambiente digital.

O iPhone segue como o principal objeto de aspiração masculina, registrando alta de 16% nas buscas, enquanto perfumes femininos (+6%) e chocolates (+5%) completam o grupo em ascensão.

No polo oposto, itens de maior desembolso têm quedas expressivas: a busca por jantares românticos recuou 29%, joias cederam 20%, relógios masculinos caíram 13% e os tênis perderam entre 10% e 12% do interesse.

Nas intenções de compra declaradas, o vestuário lidera a preferência, com 38% das menções. Em seguida, aparecem perfumes, cosméticos e maquiagem (34%), calçados e jantares (empatados com 20%) e chocolates e bombons (18%).

Do ponto de vista logístico, 45% das compras devem se concentrar na primeira semana de junho, sendo que 76% ocorrerão em lojas físicas e 34% dos pagamentos serão efetuados à vista, via Pix.

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A síntese do cenário para o varejo exige adaptação. Para capturar esse consumidor, o comércio precisará focar em acessibilidade, parcelamento e kits com bom custo-benefício, segundo Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School. “O desejo de presentear permanece intacto; o que muda é o caminho até ele, agora desenhado pela régua do orçamento”, afirma.

Preços divergentes e o alerta do Procon-SP

O perfume, apontado como um dos grandes destaques do ano por unir valor afetivo e ausência de obsolescência, exige pesquisa apurada. Embora o Ibevar aponte que a categoria, no geral, subiu apenas 1,9% — abaixo da inflação —, um levantamento específico do Procon-SP focado em 31 perfumes importados revela um acréscimo médio de 14,78% em um ano.

O órgão de defesa do consumidor cita como exemplo o eau de toilette Blue Seduction (50ml), que saltou de um preço médio de R$ 139,60, em 2025, para R$ 187,47 atualmente.

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Já o tradicional buquê de rosas vermelhas acompanhou a inflação local, com alta de 3,71%, frente a uma variação de 3,50% do IPC-SP da Fipe.

Diante das variações, o Procon-SP orienta os consumidores a fazer pesquisas online prévias, comparando a relação de qualidade, quantidade e as formas de pagamento entre lojas físicas e virtuais.

O órgão de defesa do consumidor também reforça as regras comerciais vigentes. Em lojas físicas, a troca por motivo de gosto ou tamanho não é obrigatória, a menos que o estabelecimento assuma o compromisso na etiqueta ou nota fiscal. Nas compras online, porém, o cliente tem até sete dias para desistir da aquisição.

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Para quem optar por serviços, como jantares ou estadias, a recomendação é checar antecipadamente a cobrança de taxas de serviço, rolha, couvert artístico, além das condições de estacionamento e preços de frigobar, evitando surpresas que possam comprometer ainda mais o orçamento já apertado.



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