Fim da música de uma nota só? Rotação de IA na bolsa recoloca ações de valor no radar

Depois de mais de um ano em que ganhar dinheiro na bolsa americana significava, na prática, apostar em inteligência artificial, o mercado começa a se movimentar em outra direção. As fabricantes de chips e as gigantes que mais gastam com IA lideram as perdas nesta sexta-feira (17), enquanto Apple (AAPL34), bancos, energia e meios de pagamento atraem o fluxo que sai do setor. Com isso, a rotação recoloca no radar do investidor uma pergunta que andava adormecida: onde alocar quando as vencedoras de sempre param de subir?

Segundo o Goldman Sachs, as ações de chips chegaram a esta semana negociando com um prêmio sobre o restante do mercado no menor patamar de toda a era da IA, descontados os momentos de choque externo, como a guerra tarifária de 2025 e o conflito no Oriente Médio. Desde as máximas do fim de junho, elas já ficaram cerca de 20 pontos percentuais atrás do mercado como um todo.

Na véspera, o S&P 500 na versão de peso igual (que dá a mesma importância a todas as empresas) fechou em máxima histórica, mesmo com o índice tradicional, dominado pelas gigantes de tecnologia, em queda. Para o trader da mesa de tecnologia do Goldman Sachs, Peter Callahan, esse descompasso mostra que o mercado está se “alargando”, ou seja, distribuindo os ganhos por mais setores em vez de concentrá-los em um punhado de ações de IA.

O que explica o movimento?

As razões são explicadas por vários gatilhos, e o principal é a desconfiança de que os gastos bilionários das empresas com infraestrutura de IA (capex) estejam perto do teto. A isso se juntou o avanço de modelos chineses mais baratos, capazes de entregar resultados parecidos com os das líderes americanas por uma fração do custo, o que ameaça a conta de retorno desses investimentos. Resultados abaixo do esperado na Netflix (NFLX34) e o tropeço da SpaceX (SPCX34), que abortou um lançamento e ameaça o entusiasmo com estreias na bolsa ligadas à IA, reforçaram o mau humor.

“Chips, infraestrutura, energia, tudo o que estava exposto ao tema [de IA] subiu muito, e o valuation tomou pano de fundo, o importante para o mercado é muito mais a derivada: se a estimativa de lucro está subindo ou ou não”, avaliou Leonardo Otero, fundador da Arbor Capital, em teleconferência com investidores na quinta-feira (16). “Mas nós não pensamos assim, não basta operar só narrativa, mas é o que está acontecendo”, disse.

Boa parte do movimento também é mecânica. Muitos fundos operavam a estratégia de momentum, que consiste em comprar justamente o que mais sobe, na aposta de que a alta continue. Quando o vento vira, esses fundos são obrigados a desmontar posições ao mesmo tempo, o que acelera a queda. O indicador do Goldman que acompanha esse tipo de aposta recuou cerca de 33% desde o pico, uma correção comparável à do fim de 2022.

O destino do fluxo ajuda a entender a rotação. A Apple voltou a superar a Nvidia como a empresa mais valiosa do mundo, beneficiada justamente por gastar menos com IA do que as rivais e por ficar de fora do debate sobre investimento excessivo. Além dela, o Goldman aponta procura por bancos, energia, empresas de meios de pagamento e ações ligadas a viagens. Mesmo dentro da tecnologia, o dinheiro migra para nichos vistos como menos dependentes da corrida por chips, caso das empresas de software de segurança digital e de infraestrutura de dados.

Para além do movimento do dia, há quem enxergue uma mudança de fundo. Os analistas Mika Inkinen e Nikolaos Panigirtzoglou, do JPMorgan, sustentam que o entusiasmo com a IA tende a se normalizar e que a próxima década deve se parecer mais com os ciclos econômicos “normais” das décadas de 1960 a 1980 do que com o período recente de dominância da tecnologia. Se estiver certo, ganham relevância dois tipos de estratégia que ficaram para trás nos últimos anos, as ações de valor (empresas maduras e baratas em relação ao lucro) e os dividendos.

A recomendação do banco é combinar duas abordagens. A primeira é o investimento em altos dividendos, focado em empresas que pagam bons proventos hoje. A segunda é o investimento em dividendos crescentes, que privilegia companhias de mais qualidade capazes de aumentar o pagamento ano após ano.

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No episódio de tensão no Oriente Médio em março, enquanto o S&P 500 recuou 5,8%, as carteiras voltadas a dividendos caíram 4,1%. Em compensação, durante os anos de euforia com a IA, essas mesmas estratégias renderam menos que o índice, o que explica por que haviam saído de moda.

Para Otero, da Arbor, companhias de qualidade que negociam a preços comprimidos por causa desse rótulo representam oportunidade, já que os fundamentos evoluíram mais do que o preço das ações. Mas o fundo segue apostando no setor de tecnologia, que perde para o S&P500 no ano, mas entrega mais de 25% nos últimos três anos, contra cerca de 20% do índice.

A leitura predominante entre investidores do setor, segundo o Goldman Sachs, é de fato que a confiança na tese de longo prazo de IA “segue relativamente otimista e convicta” entre os especialistas em tecnologia, com o ciclo de investimentos ainda intacto. Para boa parte do mercado, o que se vê é uma correção saudável depois de uma alta histórica, e não necessariamente o fim de um ciclo. A rotação atual pode, portanto, ser passageira.

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