Campanha de Flávio transforma crise no STF em munição contra Lula

A sessão que terminou sem uma decisão sobre Alexandre de Moraes entregou à campanha de Flávio Bolsonaro (PL) um novo argumento para uma estratégia que já estava em curso, de transformar a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) em parte da disputa contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No entorno do candidato, o adiamento do julgamento foi recebido com frustração pela ausência de uma decisão sobre a possível investigação de Moraes. Ao mesmo tempo, aliados enxergaram nas quase oito horas de sessão material para sustentar o discurso de que a Corte tem dificuldades para apurar suspeitas que atingem seus próprios integrantes.

A orientação é explorar esse desgaste de maneira seletiva. A campanha deve agora concentrar os ataques em Moraes e Flávio Dino e evitar uma ofensiva contra o STF como instituição. A divisão procura ampliar o alcance da crítica para além do eleitorado bolsonarista sem abandonar uma pauta que mobiliza a sua própria base.

O julgamento desta terça-feira (15) terminou antes de o Supremo analisar se havia elementos para investigar Moraes por seus contatos com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Os ministros passaram boa parte da sessão discutindo uma questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes para reunir o caso ao procedimento que envolve André Mendonça. Flávio Dino pediu vista e suspendeu a análise.

Para a campanha de Flávio, o fato de o mérito ter ficado para depois oferece uma forma de manter o assunto aberto durante a reta final da eleição.

Moraes como ponte até Lula

O passo seguinte é político. Flávio já vinha tentando transformar o desgaste de Moraes em desgaste de Lula antes mesmo da sessão.

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No 7 de Setembro, o candidato afirmou que “quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes”. Nesta terça, enquanto o julgamento ocorria, divulgou um vídeo acusando o presidente de ter dividido poder com o ministro do Supremo e afirmando que o governo integra um “sistema” que considera deteriorado.

Depois da sessão, Flávio voltou à carga. Disse que ministros indicados por Lula atuaram para “blindar” Moraes, em referência principalmente a Dino e Cristiano Zanin, que votaram pela análise conjunta dos casos de Moraes e Mendonça.

A associação entre Lula e Moraes tornou-se um dos eixos da campanha do PL nas últimas semanas. A equipe de Flávio já vinha reunindo vídeos, declarações e imagens dos dois para sustentar essa aproximação no discurso eleitoral.

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A sessão acrescentou um novo elemento a essa narrativa. Dino, que foi ministro da Justiça de Lula antes de ser indicado pelo presidente ao Supremo, pediu vista justamente quando o julgamento poderia avançar para a discussão sobre a investigação de Moraes.

A leitura de que o adiamento teria servido para proteger Moraes é uma interpretação da campanha de Flávio. O pedido de vista ocorreu depois de um forte bate-boca entre Gilmar Mendes e Mendonça. Dino afirmou que o ambiente no plenário havia se deteriorado e que não havia condições para prosseguir naquele momento.






Divisão do STF também vira argumento

Os embates entre os ministros interessam à campanha por outro motivo. A sessão tornou públicas diferenças que vinham se acumulando dentro do tribunal desde que as investigações do Banco Master passaram a atingir integrantes da Corte.

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Gilmar acusou Mendonça de conduzir o caso Moraes com “inequívoco viés político-eleitoral”. Mendonça chamou a acusação de leviana. Moraes também confrontou o colega e disse ter testemunhas de que Mendonça tentou direcionar a Polícia Federal contra ele.

Aliados de Flávio fazem a leitura oposta. Consideram que os ataques contra Mendonça reforçam a percepção, entre seus eleitores, de resistência interna à apuração sobre Moraes.

Também pretendem comparar o andamento do caso com a tramitação da ação penal contra Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe. O argumento da campanha é de que houve rapidez para julgar o ex-presidente e agora haveria demora para decidir sobre as suspeitas envolvendo Moraes. Trata-se de uma comparação política feita pelos aliados de Flávio entre processos com objetos, fases e procedimentos distintos.

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