Economistas destacam compromisso do Fed no “retorno mais tempestivo” à meta de 2%

O Federal Reserve entregou nesta quarta-feira (16), como esperado, uma alta de 0,25 p.p. nas taxas de juros dos Estados Unidos, e o mundo financeiro passou a buscar dados e pistas sobre as decisões futuras, uma vez que o chairman Kevin Warsh cumpriu o prometido e se negou fornecer qualquer guidance em seu discurso e na coletiva de imprensa. Mas a soma do teor do comunicado com a divulgação das projeções dos diretores aponta na direção de pelo menos mais uma alta neste ano, dizem os economistas

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, comentou que as projeções vieram na mesma direção, com uma revisão é integralmente altista para este ano, e em todas as variáveis ao mesmo tempo. “Crescimento maior, desemprego menor, inflação mais alta e juros mais altos por mais tempo”, listou.

Sung disse que um número resume a mensagem: a mediana da taxa de juros de 4,1% para o fim de 2026, acima do ponto médio do intervalo aprovado hoje, de 3,8%. “Ou seja, o Comitê projeta mais uma elevação de 0,25 p.p. ainda neste ano, cenário reafirmado pelo dot plot”.

O economista da Suno também destacou que o comunicado foi aprovado por 12 votos a zero, especialmente pelo contraste em relação a julho, quando três diretores divergiram da manutenção aprovada por preferirem exatamente o movimento entregue hoje. “A unanimidade, a nosso ver, comunica mais do que a taxa em si: o cenário econômico não registrou melhora e não há no Comitê uma ala disposta a defender a estabilidade dos juros”, explicou.

Sobre o comunicado, Sung disse que a mudança mais significativa está no parágrafo da inflação, trecho que que torna o comunicado mais duro que o divulgado em julho. Naquela reunião, o Comitê afirmava que os preços permaneciam elevados frente à meta de 2%, em parte por choques de oferta que pressionaram setores como energia. Hoje, a autoridade monetária reduziu o diagnóstico a uma frase seca, de que a inflação segue elevada, e acrescentou que a medida de política monetária de hoje apoiará um retorno mais célere rápida à meta de 2% do Comitê”, destacou.

Essa leitura é corroborada por uma das respostas que Warsh deu aos jornalistas nesta tarde. “A inflação é o problema. Preços instáveis têm sido o problema por mais de 5 anos e meio. Então, o que o Comitê decidiu fazer hoje foi tomar uma ação para garantir um retorno mais tempestivo ao nosso objetivo de estabilidade de preços”, afirmou Warsh.

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Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset Brasil, também deu destaque para unanimidade do Comitê após o placar dividido em 9 a 3 de julho, sinalizando convergência em relação à necessidade de elevar a taxa de juros para combater a persistência inflacionária. “O comunicado destacou que a economia expande a ritmo sólido e reafirmou o compromisso com a estabilidade de preços.”

Ela citou também a reação do mercado de renda fixa, que refletiu uma dinâmica de alguma perda de inclinação da curva de juros. A ponta curta respondeu à decisão e as projeções do colegiado, com o rendimento do título de 2 anos do Tesouro dos EUA avançando 9 bps para 4,69%, enquanto o título de 10 anos sobe 5bps para 5,00.

“O movimento atesta o ganho de credibilidade da autoridade monetária. Contudo, a parte mais longa da curva segue sustentando uma elevação acumulada de 80bps no ano, pressionada pela combinação de inflação de energia, volume elevado de emissões de dívida corporativa e ampliação dos déficits orçamentários nos EUA.”

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Busca por credibilidade

Em sua análise, André Valério, economista sênior do Inter, lembrou a declaração de Warsh no Simpósio de Jackson Hole de que, caso a inflação de agosto não indicasse que o processo de desinflação tivesse perdido força, ele votaria por manter a taxa de juros.

“Entretanto, os dados de agosto não foram favoráveis a essa visão, com os gastos com energia voltando a pressionar o índice, acompanhado de um núcleo da inflação mais forte que o esperado. Soma-se a isso uma economia americana bastante robusta, com um mercado de trabalho que não dá sinais de que precisa do apoio da política monetária, o Fed se colocou em uma posição em que era obrigado a aumentar os juros hoje. Do contrário, o custo de não aumentar em termos de credibilidade seria excessivamente alto”, opinou

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Sobre a divulgação das projeções pelos membros do Comitê, Valério afirmou que elas indicam uma visão de que a economia americana está aquecida, com revisão para cima as projeções de PIB e inflação, enquanto as projeções de desemprego foram reduzidas.

“Além disso, o comitê enxerga o núcleo da inflação para 2026 levemente acima do que projetavam em junho, mas reduziram a projeção do núcleo para 2027 frente as projeções feitas em junho.”

“A despeito dessa revisão, os membros antecipam apenas mais uma alta de 25bps esse ano, possivelmente em dezembro, com os juros sendo mantidos nesse patamar ao longo de 2027”, completou.

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Para o economista do Inter, dado o pessimismo nos juros americanos, é possível que o mercado leia isso como sendo “dovish” e pressione ainda mais os juros nas próximas sessões.

“De toda forma, a capacidade do Fed em entregar apenas mais essa alta dependerá da dinâmica do preço do petróleo. Caso haja alguma resolução mais duradoura em relação ao estreito de Ormuz que permita que o preço do barril retorne ao patamar de US$70 dólares observado após a assinatura do memorando de entendimento em junho, apenas mais uma alta de 25 bps é plausível. Caso contrário, o choque inflacionário de energia pode persistir por mais tempo, forçando o Fed a estender o ciclo de alta além do planejado hoje.”

Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital Nova York, é de que o tom do comunicado do Fomc foi direto.

A decisão do Fed veio dentro do esperado. Diante dos dados de inflação da semana passada, que não foram suficientes para acalmar o mercado, e com o petróleo voltando a superar os US$ 100 por barril, o Fed optou por elevar as taxas em 25 bps a fim de preservar sua credibilidade.

Na minha visão, o tom foi direto e que o uso da expressão “retorno mais tempestivo à meta de 2% do Comitê”, junto com uma projeção de juros mais alta para 2027, indica um tom mais “hawkish” que o de julho, sinalizando o que pode ser o início de ciclo de aumentos na taxa de juros americana.

“O Fed com certeza começou o seu esforço máximo contra a inflação. Optou por elevar a taxa a fim de evitar um choque de credibilidade no mercado de renda fixa americano”, disse

Para Flores, no entanto, esse movimento me parece precipitado, uma vez que a inflação implícita de 5 e 10 anos está ancorada, o PCE (índice de inflação alvo do Fed) passará por uma revisão metodológica do Bureau of Economic Analysis em 30 de setembro que pode reduzir a leitura da inflação em cerca de 20 bp e as forças-tarefa lideradas por Warsh já vêm promovendo mudanças estruturais relevantes.

Mateus Hammes, head de investimento da Ludo Capital, por sua vez, disse que o principal argumento do Fed para sua decisão é a inflação persistente, turbinada pelo choque de petróleo. Ele citou em sua análise que o barril de Brent ultrapassou os US$ 100 e chegou a US$ 107 nesta semana, após ataques ao oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita e a escalada de tensões envolvendo houthis, Irã e o Estreito de Ormuz — uma rota que responde por cerca de 4% do abastecimento global.

“Kevin Warsh já havia sinalizado o caminho no discurso de Jackson Hole, em agosto, ao afirmar que a inflação segue distante da meta de 2%. Desde então, dados de preços ao consumidor vieram consistentemente acima do esperado, reforçando a leitura de que a pressão inflacionária não é passageira”, lembrou.

A opinião de Marcelo Bassani, economista e sócio-fundador da Boa Brasil Capital, também é de que o comunicado veio “hawkish”. “O principal ponto, na minha visão, não é nem a alta em si, mas o fato de o Fed elevar a projeção de juros para o fim de 2026 de 3,8% para 4,1%, sinalizando que pode haver mais uma alta ainda este ano. É um tom de comitê que não está satisfeito com o processo desinflacionário e prefere apertar um pouco mais os juros, do que ceder a cortes ou mantimento”, explicou.

Bassani disse acreditar que a decisão se justifica pelos próprios fundamentos citados no comunicado: atividade econômica em ritmo sólido, gastos domésticos resilientes (mesmo com a incerteza geopolítica do Oriente Médio), produtividade forte, investimentos robustos e mercado de trabalho ainda equilibrado, sem sinais de deterioração.

“Ou seja, a economia americana está aguentando juros altos sem travar e isso provavelmente deve dar ao Fed conforto para continuar priorizando o combate à inflação em vez de se preocupar somente com crescimento ou emprego”, afirmou.



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