Ibovespa cai 3 mil pontos após anúncio do Bolsa Família, mas recupera: qual impacto?

A influência inicial das decisões de juros nos Estados Unidos e no Brasil durou pouco no mercado brasileiro, que passou a ter forte volatilidade durante a manhã. Após abrir perto da estabilidade e chegar a renovar máximas na primeira hora do pregão, o Ibovespa passou a acelerar as perdas depois do anúncio do reajuste de 15% no Bolsa Família, movimento que reacendeu preocupações com a trajetória fiscal e levou investidores a exigir prêmios maiores para carregar ativos domésticos.

Na máxima do dia, o principal índice da B3 alcançou 186.203 pontos, mas virou para queda por volta das 10h30 e chegou a tocar mínima próxima de 183 mil pontos. Mais precisamente, o Ibovespa caiu 1,24%, a 183.242,37 pontos. A mudança de humor ocorreu justamente quando o mercado passou a recalibrar o impacto fiscal do aumento do benefício social. Contudo, o índice foi amenizando as baixas, voltando acima dos 185 mil pontos, também em meio a indicações do ministro da Fazenda, Dario Durigan, de que o aumento “cabe no Orçamento”. Às 11h45 (horário de Brasília), o benchmark da Bolsa caía 0,22%, a 185.147 pontos.

Até então, os investidores concentravam suas atenções na chamada “Super Quarta”. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve elevou os juros em 0,25 ponto percentual, enquanto no Brasil o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic de 14% para 13,75%, em linha com as expectativas.

Para Kevin Oliveira, sócio e advisor da Blue3, o principal efeito conjunto dessas decisões é a redução gradual do diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos.

“A frase principal desta semana e dos próximos meses é que o carry trade está diminuindo”, afirma. Segundo ele, o tema tende a ganhar relevância crescente para os investidores estrangeiros, reduzindo parte da atratividade relativa dos ativos brasileiros.

A avaliação é compartilhada por João Daronco, analista da Suno Research. Segundo ele, tanto a decisão do Fed quanto a do Copom já estavam precificadas pelos mercados.

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“Sempre existe algum movimento de realização de lucros, mas a diminuição do diferencial de juros deixa o Brasil relativamente menos interessante para o investidor estrangeiro do que era anteriormente”, diz.

Fiscal volta ao centro das atenções

O anúncio do reajuste do Bolsa Família, no entanto, alterou completamente o foco do mercado.

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Segundo o ministro do Planejamento e Orçamento, o aumento de 15% no benefício terá custo de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 e de aproximadamente R$ 22 bilhões em 2027, com o governo argumentando que o impacto será absorvido pelo espaço fiscal disponível.

A reação dos agentes financeiros foi imediata. O dólar passou a ganhar força frente ao real e os contratos de juros futuros de prazo mais longo inverteram a direção e passaram a subir.

Para João Ferreira, sócio da One, a medida reforça as dúvidas do mercado sobre uma trajetória mais favorável para as contas públicas.

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“Medidas como essa em período eleitoral não são novidade no Brasil. Elas apenas indicam aprofundamento ou continuidade de uma política fiscal expansionista”, afirma.

Na mesma linha, Gustavo Assis, CEO da Asset, avalia que o anúncio deslocou o eixo de precificação dos mercados.

“O anúncio do reajuste do Bolsa Família alterou o eixo do pregão. Pela manhã, o mercado reagia principalmente às decisões do Copom e do Federal Reserve, com queda do dólar e tentativa de recuperação do Ibovespa. Depois do anúncio, a questão fiscal voltou ao centro da precificação, levando o câmbio a virar para alta e a Bolsa a intensificar as perdas”, afirma.

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Segundo ele, a principal preocupação dos investidores não está associada ao programa social em si, mas à ausência de detalhes sobre sua compensação fiscal.

“O problema está na combinação entre o caráter permanente da despesa e a falta de clareza sobre como ela será financiada. O impacto é relativamente pequeno em 2026, mas alcança cerca de R$ 22 bilhões em 2027”, destaca.

Juros futuros sobem e ações domésticas sofrem

Na avaliação de Assis, a incerteza sobre a origem dos recursos necessários para financiar o aumento do benefício tende a provocar uma reabertura dos prêmios exigidos pelo mercado.

“Os juros futuros, especialmente nos vencimentos mais longos, tendem a subir para incorporar riscos maiores de inflação, endividamento e deterioração fiscal”, afirma.

Esse movimento afeta diretamente a precificação das empresas listadas, especialmente aquelas mais dependentes da economia doméstica.

“A alta da curva reduz o valor presente das companhias, eleva o custo de capital e penaliza principalmente setores como varejo, construção civil e empresas mais endividadas”, explica.

No câmbio, o mecanismo é semelhante. Segundo Assis, o aumento da percepção de risco fiscal eleva a demanda por proteção e pode sobrepor fatores que, em tese, favoreceriam o real, como o diferencial de juros ainda elevado frente aos países desenvolvidos.

Corte da Selic perde protagonismo

O enfraquecimento da reação positiva ao corte de juros também chamou atenção dos analistas.

Na véspera, embora tenha reduzido a Selic para 13,75%, o Copom manteve avaliação cautelosa para o quadro inflacionário, destacando que os riscos continuam elevados e com assimetria altista.

Para Assis, isso significa que uma política fiscal mais expansionista pode limitar justamente os benefícios esperados do ciclo de afrouxamento monetário.

“A decisão do Copom não é anulada pelo anúncio. Mas uma expansão fiscal sem compensação tende a reduzir o espaço para novos cortes de juros ou exigir uma postura mais conservadora do Banco Central”, afirma.

Assim, o mercado passa a monitorar não apenas os próximos dados de inflação e atividade, mas também quais medidas o governo poderá apresentar para acomodar a nova despesa dentro das regras fiscais.

Eleições também entram na conta

O anúncio ocorre em um momento em que a disputa presidencial segue apertada. Pesquisas divulgadas nesta quinta-feira mostraram cenários de empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro em simulações de segundo turno.

Para parte dos investidores, o tema fiscal continua sendo um dos principais fatores de diferenciação entre os cenários eleitorais, o que aumenta a sensibilidade dos ativos a qualquer anúncio com impacto potencial sobre gastos públicos.

“Sem dúvidas, temos um impacto fiscal. O governo vai ter que ajustar o orçamento para o ano que vem. E isso já mexe com os mercados. A gente já vê a Bolsa, que estava subindo, hoje caindo e a curva de juros e o dólar reagindo, seja pela questão fiscal, seja porque isso pode ser interpretado como algo que pode aumentar as chances do Lula nas eleições, sobretudo no segundo turno”, aponta Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.

(com Estadão Conteúdo e Reuters)



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