Taxa de filhos por mulher vem caindo. O que o iPhone tem a ver com isso?

O celular mudou radicalmente a forma de trabalhar, comprar e até de se relacionar, mas agora ele pode estar contribuindo também para outra transformação, bem mais profunda e com consequências econômicas de longo prazo: a redução do número de filhos.

Estudos recentes começam a encontrar evidências de que a disseminação dos smartphones reduziu a socialização presencial entre jovens e, ao lado dos novos métodos contraceptivos, ajudou a derrubar os nascimentos em todo o mundo. No Brasil, o fenômeno acrescenta uma nova camada ao problema, porque o país  está envelhecendo rapidamente mesmo antes de ter alcançado o nível de renda das economias mais desenvolvidas.

Taxa de fecundidade em queda

A taxa de fecundidade brasileira caiu de 6,3 filhos por mulher em 1960 para 1,58 em 2022, segundo dados do último Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o economista Daniel Duque, do FGV Ibre, a projeção oficial indica nova redução para 1,47 em 2030 e 1,44 por volta de 2040. “Isso é muito abaixo dos 2,1 filhos necessários para a chamada reposição da população”, disse.

A mudança não significa simplesmente que haverá menos brasileiros. Ela altera a quantidade de pessoas disponíveis para trabalhar, produzir, consumir e financiar, por meio de impostos e contribuições, uma população idosa crescente. Duque estima que a população brasileira ocupada alcance seu pico por volta de 2037 e passe depois a diminuir. “A gente chega nesse ponto e, a partir daí, a população ocupada começa a cair em termos absolutos”, afirma Duque.

O problema brasileiro possui um ingrediente particularmente incômodo. Países europeus começaram a envelhecer depois de terem acumulado renda e capital durante décadas. O Brasil está percorrendo parte do mesmo caminho demográfico com uma economia muito menos produtiva e com menor capacidade de substituir trabalhadores por capital e tecnologia, como explica o economista.

“Se você pega o perfil demográfico do Brasil, ele está se aproximando muito rápido de países como França e Espanha, mas está muito longe de estar no nível de renda deles. Então, esse é um desafio adicional”, diz Duque.

Continua depois da publicidade

Leia também: Média de filhos por mulher cai ao menor nível da história, aponta Censo

É nesse ponto que o smartphone entra numa história aparentemente distante da tecnologia. Um estudo divulgado em junho pelo National Bureau of Economic Research (NBER), nos Estados Unidos, explorou uma peculiaridade da chegada do iPhone ao mercado americano para tentar identificar seu efeito sobre os nascimentos.

Entre 2007 e 2011, os serviços garantidos pelo aparelho só eram oferecidos pela operadora AT&T. Como a qualidade da cobertura de internet móvel da empresa variava geograficamente, os pesquisadores conseguiram comparar áreas onde o acesso ao iPhone avançou mais rapidamente com regiões onde a expansão foi mais lenta.

Continua depois da publicidade

Os resultados chamam a atenção. O acesso ao iPhone foi associado a uma redução de 4,5% a 8% nos nascimentos entre mulheres de 15 a 19 anos e de 3,2% a 6,6% entre aquelas de 20 a 24 anos, com efeitos menores, mas estatisticamente significativos, entre grupos mais velhos.

Pelas estimativas dos autores, a difusão do aparelho explicaria entre 33% e 52% da queda da taxa geral de fecundidade americana observada no período analisado.

Trata-se de um documento de estudo e, portanto, seus resultados devem ser lidos como evidência acadêmica em desenvolvimento, e não como uma explicação definitiva para a queda mundial da fecundidade. Mas o mecanismo encontrado pelos pesquisadores ajuda a entender por que se considera a tecnologia uma peça importante do quebra-cabeça, segundo Duque.

Continua depois da publicidade

“Basicamente, as pessoas estão parando de socializar. Elas ficam no smartphone e saem menos. Com menos encontros presenciais também ficam menores as chances de novos relacionamentos que, posteriormente, poderiam resultar em filhos”, afirma.

Isso não significa que o celular sozinho explique por que as famílias estão menores. Escolaridade, urbanização, custo da criação dos filhos, participação feminina no mercado de trabalho, contracepção, adiamento da maternidade e mudanças culturais também entram nessa equação.

Brasil envelheceu antes de ficar rico

O efeito econômico da mudança demográfica ocorre por vários canais. O primeiro é relativamente simples: se a proporção de pessoas trabalhando diminui, a produção potencial também tende a ser afetada, a menos que cada trabalhador consiga produzir mais.

Continua depois da publicidade

É aí que produtividade, automação e inteligência artificial deixam de ser apenas temas tecnológicos e passam a fazer parte da equação demográfica. Países desenvolvidos conseguem compensar parcialmente a escassez de trabalhadores com maior intensidade de investimentos em tecnologia. Também recorreram durante décadas aos imigrantes.

Para Duque, as duas saídas são mais difíceis para o Brasil. O país tem menor capacidade de acumulação de capital e não oferece salários tão elevados quanto economias desenvolvidas para disputar trabalhadores estrangeiros.

Pelas estimativas apresentadas pelo economista, a redução da população ocupada poderá representar, no longo prazo, um impacto próximo de 10% sobre o PIB. “Mesmo se a gente tivesse uma Previdência equilibrada, o custo do envelhecimento da população somado a essa falta de novos brasileiros devem gerar um custo econômico muito grande”, afirma.

Com menos trabalhadores e mais aposentados, a Previdência continuará sendo uma das faces mais imediatas do problema. Duque estima que o Brasil gaste hoje aproximadamente 12% do PIB com Previdência e alerta que, mantida a trajetória demográfica, essa despesa poderia se aproximar de 20% do PIB em cerca de duas décadas.

Nesse cenário, segundo ele, uma parcela crescente da arrecadação teria de ser destinada a aposentadorias e pensões, reduzindo o espaço fiscal para outras despesas. Ao mesmo tempo, o envelhecimento pressiona os gastos de saúde, que são maiores nas faixas etárias mais avançadas. Claro que todos esses números são apenas estimativas, mas que não ficam muito longe da realidade.

Leia Mais: Paulistas chegam cada vez mais tarde à paternidade; média está em 32 anos

Trabalhar depois dos 65 pode ser mais comum

A transformação do cenário já está chegando às empresas. Com menos jovens ingressando no mercado e pessoas vivendo mais, muitas corporações ampliam a permanência dos mais velhos na força de trabalho. “A gente vai ter que empurrar a idade ativa para depois de 65”, afirma, citando países europeus que já elevaram a idade de aposentadoria dos trabalhadores para 67, 68 ou mesmo 70 anos.

Para as empresas, isso muda a discussão sobre envelhecimento. Em vez de simplesmente substituir trabalhadores mais velhos por novas gerações, será necessário adaptar funções, treinamento, jornadas e ambientes de trabalho para carreiras mais longas.

E há uma ironia econômica nesse processo, pois justamente quando inteligência artificial e automação levantam o temor de eliminação de empregos, a demografia aponta para um Brasil que poderá precisar de tecnologia para compensar a falta de trabalhadores.

Dá para convencer brasileiros a terem mais filhos?

A terceira saída seria tentar elevar novamente a fecundidade. Políticas chamadas de pró-natalidade já são utilizadas em países europeus e asiáticos. Elas incluem benefícios fiscais para famílias com filhos, creches subsidiadas, transferências de renda e outros incentivos.

Duque defende que o Brasil comece a discutir medidas semelhantes. “Pode ser um desconto no Imposto de Renda, uma creche efetivamente garantida para quem tem renda baixa e até uma garantia de renda, com transferência direta”, exemplifica.

Mas existe uma dificuldade que nenhuma política econômica consegue resolver rapidamente, que é o tempo. Uma criança que nasça em consequência de um incentivo adotado hoje levará aproximadamente duas décadas para chegar ao mercado de trabalho. E, como há menos mulheres chegando às idades reprodutivas, mesmo uma recuperação futura da taxa de fecundidade demora a alterar a estrutura populacional.

“Nos próximos 30 anos, esse problema já está meio contratado. O que a gente pode fazer é adotar políticas agora para, depois de 30 anos, começar a ter algum impacto positivo”, afirma Duque.

A conta econômica

O país não precisa esperar sua população diminuir para sentir seus efeitos. A alteração da proporção entre crianças, adultos em idade de trabalhar e idosos modifica o crescimento potencial de todo o país, afetando todas as contas públicas.

O Brasil levou poucas décadas para passar de famílias numerosas para uma fecundidade muito abaixo do necessário para reposição. Agora começa a aparecer a fatura econômica dessa velocidade. E, diferentemente de uma tela de celular, não existe botão para desfazer uma transição demográfica depois que ela já aconteceu.



Clique aqui e acesse a fonte da matéria