Após dois anos em cativeiro em Gaza, gêmeos tentam reconstruir a vida em Israel

TEL AVIV, Israel — Nesta quarta-feira, os israelenses marcarão o terceiro aniversário do dia mais violento da história do país. Na manhã de 7 de outubro de 2023, um feriado judaico, o Hamas liderou um ataque transfronteiriço a partir da Faixa de Gaza contra o sul de Israel, invadindo bases militares e comunidades próximas à fronteira e perseguindo participantes de um festival de música.

Homens armados mataram cerca de 1.200 pessoas, segundo as autoridades israelenses, e levaram aproximadamente outras 250 para Gaza como reféns. Os ataques desencadearam uma guerra devastadora no enclave palestino, onde dezenas de milhares de pessoas foram mortas na ofensiva israelense e grande parte do território foi reduzida a escombros.

Os reféns retornaram a Israel em etapas. Dezenas morreram no cativeiro e tiveram seus corpos repatriados. Alguns dos sobreviventes escreveram memórias. Outros se casaram ou tiveram filhos.

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Gali e Ziv Berman, irmãos gêmeos, tinham 26 anos quando foram sequestrados em Kfar Aza, o kibutz onde viviam. Um ano após serem libertados, tentam concentrar-se em reconstruir suas vidas. Gali estuda Direito, Governança e Diplomacia na universidade, enquanto Ziv vive um novo relacionamento.

O caminho de volta a algo parecido com a normalidade ainda está longe de terminar, e os horrores de 7 de outubro continuam assombrando os dois irmãos e todo o país.

O retorno

Quando soldados israelenses retiraram os irmãos de Gaza em 13 de outubro de 2025, após dois anos de cativeiro durante os quais foram separados, espancados, privados de comida e mantidos principalmente em túneis úmidos sob o enclave, Ziv disse que eles tinham “milhares de perguntas”.

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Eles não sabiam se a família havia sobrevivido ao ataque de 7 de outubro. Também queriam saber as últimas notícias sobre seu time de futebol favorito, o Maccabi Tel Aviv.

Os irmãos também se perguntavam o que havia acontecido com Kfar Aza. Descobriram que mais de 60 dos cerca de mil moradores do kibutz haviam sido mortos e outros 19 sequestrados.

“Queríamos voltar para casa”, disse Ziv. “Eles nos disseram que ela não existia mais.”

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Eles viram a mãe, Talia, pela primeira vez em uma base militar próxima à fronteira com Gaza e souberam que seus familiares mais próximos estavam vivos.

Os irmãos gêmeos Ziv (à esquerda) e Gali Berman, sequestrados por homens armados nos ataques de 7 de outubro de 2023, são recebidos por moradores em Beit Guvrin, Israel, após deixarem o hospital depois do período em que ficaram em cativeiro em Gaza, em 19 de outubro de 2025. (Avishag Shaar-Yashuv/The New York Times)

“Ficamos sem palavras”, disse Gali. “Não havia o que dizer.”

Os pais haviam se mudado para Beit Guvrin, um kibutz mais distante de Gaza. Os irmãos passaram a primeira semana de liberdade em um hospital, mas saíram por um dia para visitar o pai, que sofre de Parkinson avançado e demência.

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“Ele olhou para nós, percebeu quem éramos e começou a chorar”, relembrou Gali.

Pouco depois, reencontraram Emily Damari, amiga próxima e vizinha em Kfar Aza, que havia sido sequestrada junto com eles e libertada meses antes. Emily fez campanha pela libertação dos irmãos e, em agosto, Gali e Ziv dançaram em seu casamento com Danielle Amit, influenciadora israelense do setor gastronômico.

Os irmãos também finalmente puderam lamentar a morte de amigos que não sobreviveram. Em dezembro de 2023, forças israelenses mataram acidentalmente três reféns que tentavam escapar após confundirem-nos com militantes. Dois deles eram de Kfar Aza, incluindo Alon Shimriz, amigo de infância dos irmãos.

Sentados em frente a um café em Tel Aviv, os gêmeos disseram que sua liberdade não parecia completa porque o corpo do último cativo, o subtenente Ran Gvili, ainda permanecia em Gaza.

Menos de duas semanas depois, Israel recuperou seus restos mortais. Para muitos israelenses, e para os irmãos, foi somente então que a saga dos reféns chegou ao fim.

O sequestro

Gali e Ziv afirmaram que cresceram fazendo parte da chamada “geração Qassam”, referência aos foguetes artesanais lançados por grupos militantes de Gaza contra Israel.

Em Kfar Aza, os alertas antecipados lhes davam, no máximo, 15 segundos para procurar abrigo.

“Desde criança”, disse Gali, “corríamos para os abrigos”.

Eles jamais imaginaram um ataque na escala do ocorrido em 7 de outubro. Já adultos, levavam uma vida relativamente tranquila e confortável, trabalhando como técnicos em uma empresa de produção de som e iluminação sediada no kibutz.

Quando o ataque começou e os tiros se aproximaram, Emily Damari ficou com medo de ficar sozinha. Gali correu para sua casa para acompanhá-la.

Homens armados invadiram o quarto, mataram o cachorro de Emily, Choocha, e atiraram nela, deixando-a ferida.

Próximo dali, militantes incendiaram a casa de Ziv, que estava abrigado em um quarto seguro. O local rapidamente se encheu de fumaça.

“A escolha era sufocar ou sair. Eu saí”, contou.

Os sequestradores obrigaram Emily e os irmãos a entrar em seu carro, que seguiu para Gaza. Em meio ao caos, Ziv, vendado e sentado no banco da frente, nem sabia que Gali também estava no veículo.

Gali disse que jamais esquecerá os gritos de comemoração que ouviu nas ruas de Gaza enquanto passavam.

“Parecia que todo mundo estava lá fora”, recordou.

“Um milhão de pessoas”, acrescentou Ziv.

No primeiro dia de cativeiro, Gali foi levado para outro local. Ziv e Emily permaneceram juntos até o 40º dia, quando foram conduzidos para túneis e os sequestradores separaram homens e mulheres.

Os irmãos voltaram a se encontrar apenas seis meses depois, nas ruínas de uma casa destruída por bombardeios. Os sequestradores gravaram o reencontro para um vídeo de propaganda que nunca foi divulgado.

Eles passaram duas noites juntos, conversando e praticamente sem dormir.

A nova vida

A transição do cativeiro para a liberdade é um processo. O último ano dos irmãos em Israel foi radicalmente diferente da vida tranquila e rotineira que levavam antes.

Cada um perdeu cerca de 20 quilos durante o período em Gaza. Ziv passou por extensos tratamentos dentários e afirmou que ficou cerca de um ano sem escovar os dentes enquanto esteve refém.

Os irmãos viajaram para diversos países. Encontraram-se com o presidente Donald Trump nos Estados Unidos e falaram a comunidades judaicas americanas, determinados, segundo eles, a “contar ao mundo” o que aconteceu.

Gali diz que os dois ficaram ainda mais próximos após a experiência compartilhada.

“O desejo de estarmos juntos é mais forte”, afirmou.

Mesmo tentando olhar para o futuro, Gali, Ziv e Emily continuam conversando sobre “as memórias e os traumas” vividos durante o cativeiro.

Recentemente, os irmãos voltaram de uma viagem à Tailândia e, após visitarem os túmulos de amigos, embarcaram em outra viagem curta ao exterior. Queriam ficar longe das cerimônias de lembrança de 7 de outubro, as primeiras desde que retornaram de Gaza.

No dia da libertação, pediram ao piloto do helicóptero que os levava ao hospital para sobrevoar o Estádio Bloomfield, casa do Maccabi Tel Aviv, clube pelo qual são apaixonados.

Hoje, recuperam o tempo perdido assistindo a partidas, jogando futebol e permanecendo próximos da família.

No mês passado, celebraram seus 29 anos com uma grande festa em Tel Aviv. Centenas de parentes e amigos, incluindo ex-reféns libertados, participaram da comemoração.

O futuro, porém, continuará marcado por lembranças dolorosas.

“O tempo em cativeiro sempre fará parte de quem eu sou, para o bem e para o mal”, disse Gali. “Mas estamos vivos. Não damos nada como garantido.”

c.2026 The New York Times Company



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