- outubro 8, 2026
- Posted by: admin
- Category: Notícias
A França, segunda maior economia da União Europeia e por décadas vista como uma pagadora segura, hoje paga juros mais altos que Itália e Grécia quando emite novos títulos. Nesta quinta-feira (8), a taxa dos títulos do governo francês de 10 anos voltou a subir e se aproximou de 4,9% ao ano, perto do maior nível desde 2002. Com isso, os papéis caminham para a sexta semana seguida de desvalorização.
O episódio acontece num momento em que os juros já sobem em vários países. O petróleo voltou a passar de US$ 100 por barril com as tensões no Oriente Médio, o que alimenta o temor de inflação mais alta. Nos Estados Unidos, os juros dos títulos do Tesouro de 10 anos chegaram ao maior nível desde 2002, e no Reino Unido passam de 5,5%.
Em nota a clientes, o Deutsche Bank classificou os movimentos como “genuinamente históricos”. Segundo o banco, a diferença entre os juros franceses e alemães nunca tinha aumentado tanto em uma única semana desde 1990, quando começa a série de dados. O Deutsche também calcula que quem investiu em títulos franceses de 10 anos teve, na última década, o pior retorno desde 1803, quando os efeitos da Revolução Francesa ainda pesavam sobre as contas do país.
Por que a França virou preocupação
Os juros de um título público sobem quando investidores estão exigindo uma recompensa maior para emprestar dinheiro àquele governo, geralmente porque passaram a enxergar mais risco. No caso francês, a desconfiança vem de uma combinação de dívida alta, contas no vermelho e dificuldade política para resolver o problema.
O estopim foi o projeto de orçamento de 2027, que prevê déficit de 5,4% do PIB, bem acima do limite de 3% estabelecido pela União Europeia. Com o Parlamento dividido e a eleição presidencial marcada para a próxima primavera europeia, o mercado duvida que o governo consiga aprovar cortes de gastos.
A dívida pública francesa soma pouco mais de 3,5 trilhões de euros, perto de 120% de tudo o que o país produz em um ano, e o governo não fecha as contas no azul desde 1974. Para piorar, a França precisa captar um volume recorde de 340 bilhões de euros no ano que vem, boa parte para pagar títulos que vencem, justamente quando os investidores cobram mais caro.
Continua depois da publicidade
Até o presidente do Banco da França, Emmanuel Moulin, reconheceu na quarta-feira que a situação do país é “séria”, embora tenha descartado a necessidade de ajuda do Banco Central Europeu (BCE).
Para Bert Flossbach, cofundador da gestora alemã Flossbach von Storch, a França se tornou o “novo filho-problema da zona do euro”, diante da resistência crônica a reformas.
O termômetro mais usado pelo mercado é a comparação com a Alemanha, considerada a pagadora mais segura da Europa. Hoje, a França paga cerca de 1,3 ponto percentual a mais que os alemães nos títulos de 10 anos, a maior diferença desde a crise da dívida europeia, em 2012.
Continua depois da publicidade
Existe risco de uma nova crise do euro?
A preocupação já se espalha. Os juros de Itália e Grécia também subiram nos últimos dias, e o euro caiu ao menor valor em 17 meses frente ao dólar.
Ainda assim, especialistas descartam um calote. Flossbach lembra que o BCE tem um instrumento para comprar títulos de países sob pressão e conter a alta dos juros, o que funciona como uma espécie de rede de proteção. Mas, na avaliação dele, a situação precisaria piorar bastante antes de uma intervenção, até porque um socorro poderia incentivar outros governos a gastar mais.
O Deutsche Bank também pondera que boa parte da venda recente veio de investidores desmontando operações que apostavam em um mercado mais tranquilo, e não apenas de uma piora nos fundamentos.
Continua depois da publicidade
O que muda para o investidor
O lado positivo da alta dos juros é que a renda fixa voltou a pagar bem. Durante anos, os títulos tiveram papel secundário nas carteiras da gestora porque rendiam pouco e ofereciam pouca proteção caso os preços caíssem. Esse cenário começou a mudar, segundo Flossbach, e a Flossbach von Storch decidiu aumentar o peso dos títulos nas carteiras que combinam ações e renda fixa.
A lógica é que, com juros mais altos, o investidor recebe mais pelo dinheiro emprestado, e essa renda maior funciona como um colchão. Se as taxas subirem ainda mais e os títulos perderem valor no curto prazo, os pagamentos de juros ajudam a compensar parte da perda. No longo prazo, o que importa é quanto sobra do rendimento depois de descontada a inflação, e, para o gestor, o retorno continua atraente mesmo que a inflação fique entre 3% e 4% ao ano.
Um sinal curioso do momento é que o mercado hoje confia mais em empresas com boa nota de crédito do que nos governos da França e da Itália. Títulos corporativos de alta qualidade já rendem cerca de 4,5% ao ano em euros, acima dos papéis do governo alemão, e perto de 6% em dólares. Flossbach considera que o risco de investir em dólar é administrável, dada a fraqueza crônica do crescimento na zona do euro, mas ressalta que a seletividade é essencial, com foco em emissores de qualidade.
Continua depois da publicidade
A BlackRock já recomendava cautela com os títulos de prazo muito longo. A gestora prefere papéis de curto e médio prazo, que oferecem boa renda e sofrem menos quando os juros sobem, e avalia que os títulos longos se tornaram uma proteção menos confiável para as carteiras num cenário de inflação persistente e dívidas elevadas. No crédito privado, a recomendação é escolher empresas com caixa previsível e boas garantias.
Para quem pensa em aproveitar a alta dos juros franceses, o Deutsche Bank avalia que os títulos do país já estão baratos em relação aos fundamentos. O banco reconhece, porém, que o momento é desafiador e que os gráficos de longo prazo preocupam.

