Após IPO, SpaceX encara teste do mercado para bancar ambição trilionária em IA

Quando Elon Musk entrou em modo vendedor antes do IPO da SpaceX, a comparação que usou para justificar uma avaliação de trilhões de dólares — e pedir dezenas de bilhões a investidores — chamou atenção.

“Somos meio como a Union Pacific”, disse ele em entrevista durante uma apresentação a investidores antes da oferta pública inicial, citando um de seus paralelos históricos favoritos: o projeto de infraestrutura do século 19 criado para conectar, pela primeira vez por ferrovia, os estados do oeste dos Estados Unidos. “As pessoas achavam que eles eram loucos”, afirmou, “mas hoje a Califórnia é o maior estado do país”.

A fala foi típica de Musk. O homem mais rico do mundo e primeiro trilionário do planeta associou a SpaceX — com seus planos de data centers em órbita e uma colônia em Marte — a um símbolo da transformação dos EUA em superpotência. Para ele, esse seria um prêmio grande o suficiente para justificar o investimento que levou o valor de mercado da empresa para mais de US$ 2,5 trilhões em poucos dias de negociação.

Gwynne Shotwell, presidente da SpaceX, ao centro, durante o IPO da companhia no Nasdaq MarketSite, em Nova York, em 12 de junho de 2026 (Bloomberg)

Mas o IPO não foi o ponto final da captação. Foi só o começo. A SpaceX já se volta ao mercado de dívida e se prepara para buscar ao menos US$ 20 bilhões em sua primeira operação, informou a Bloomberg News. Em uma das estimativas, os investimentos em capital da empresa podem superar US$ 700 bilhões por ano até 2031. A pergunta é se isso é demais, mesmo para um projeto que, nas palavras de Musk, busca tornar “Jornada nas Estrelas” realidade.

Basta perguntar aos apoiadores da Union Pacific. A construção da ferrovia fracassou e parou em Utah, e não na Califórnia. O projeto foi sustentado por apoio do governo, gerou fortunas para pessoas de dentro e terminou em fracasso.

Richard White, professor emérito de história americana da Universidade Stanford, classificou a Union Pacific original como “um caos de conflito de interesses e corrupção”.

“Usar isso como modelo para o que sua corporação vai ser joga com a imensa ignorância sobre a história deste país, dos mercados financeiros e da maioria dos americanos”, disse ele em entrevista.

Um representante da SpaceX não respondeu imediatamente a pedido de comentário.

Um desafio gigante

Construir as ambições de inteligência artificial da SpaceX é uma tarefa monumental, especialmente porque a empresa não dá lucro.

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Analistas do Goldman Sachs e da Evercore ISI projetam que a companhia pode gastar mais de US$ 1 trilhão até o fim da década, segundo a Bloomberg News. A maior parte desse dinheiro seria destinada às operações de IA da SpaceX e à visão de levar data centers para o espaço.

Em reuniões com investidores em potencial, o diretor financeiro Bret Johnsen e a presidente Gwynne Shotwell disseram esperar que o IPO tenha sido a última vez que a SpaceX venderá ações, segundo pessoas a par do assunto. Em vez de levantar bilhões diluindo os acionistas — inclusive o próprio Musk —, o plano é acessar o mercado de dívida, após a empresa destacar ao longo de todo o processo de IPO que já havia alinhado ratings de grau de investimento, disseram algumas das fontes.

No fim da quinta-feira, as três principais agências de classificação atribuíram à empresa notas de grau de investimento para seus títulos.

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Analistas da Oppenheimer, liderados por Timothy Horan, projetam que a SpaceX pode adicionar mais de US$ 400 bilhões em dívida líquida até 2031, ante cerca de US$ 13 bilhões há poucos meses. Isso seria muito mais do que quase qualquer empresa americana carrega hoje no balanço e mais que triplicaria a dívida da Oracle.

Segundo esses analistas, a dívida deve ser a principal fonte de financiamento da companhia, complementada por cerca de US$ 40 bilhões em capital próprio adicional.

Mas participantes do mercado de crédito têm dúvidas.

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“A grande maioria desse capex vai ter de ser financiada com capital próprio, não pelo nosso mercado”, disse Jim Fitzpatrick, chefe de pesquisa de crédito investment grade nos EUA da Allspring. “Eles simplesmente não vão ter capacidade para emitir muita dívida adicional e, ao mesmo tempo, manter o grau de investimento, especialmente porque a empresa não tem histórico com as agências.”

A SpaceX deve ir atrás de dinheiro justamente quando Anthropic e OpenAI também tentam levantar dezenas de bilhões de dólares em seus próprios IPOs, possivelmente ainda neste ano. Ao mesmo tempo, empresas da chamada Magnificent Seven com foco em IA, como a Alphabet, seguem despejando mais bilhões no setor.

“É uma expansão simultânea de data centers e semicondutores, infraestrutura de energia e redes de satélites”, disse Justin Reed, diretor de investimentos da Brown Brothers Harriman. “Estamos saindo de um mundo em que se financiavam aplicativos, que exigiam pouco capital, para um momento em que, francamente, estamos financiando um ecossistema econômico inteiro. É por isso que as necessidades de capital parecem tão extraordinárias.”

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O foguete reutilizável Falcon 9, da SpaceX, em exibição do lado de fora das instalações da empresa em Hawthorne, Califórnia (Bloomberg)

Segundo a McKinsey, o custo para expandir data centers aqui na Terra chegará a US$ 7 trilhões até o fim da década. As ambições orbitais da SpaceX provavelmente acrescentariam ainda mais a essa conta, testando tanto o mercado de ações quanto o de dívida. Alguns avaliam que, com o múltiplo elevado da companhia, levantar capital via ações pode ser mais fácil.

“Com a SpaceX, se você compra a tese independentemente da avaliação, pelo menos na ação existe um potencial relevante de valorização”, disse Joe Hegener, diretor de investimentos da Asterozoa Capital. “No mercado de dívida, porém, o ganho fica limitado ao cupom — e a perda pode ser todo o resto.”

Os banqueiros estão otimistas de que o mercado continuará bancando boa parte desses gastos — principalmente aqueles ligados à construção de data centers e aos chamados hyperscalers, que fornecem a capacidade computacional por trás do avanço acelerado da IA.

“Tudo isso está mudando o mercado de capitais de maneira bastante relevante”, disse Lisa Clyde, co-chefe global de mercados de capitais do Bank of America. “Estamos vendo as fronteiras ficarem borradas entre produtos e entre os mercados público e privado, e as empresas precisam pensar de forma mais criativa sobre financiamento dentro e fora do balanço.”

A aceleração do financiamento já impulsionou a atividade em vários produtos. As ofertas públicas iniciais e vendas secundárias de ações nos EUA somam US$ 163 bilhões neste ano — mesmo sem contar o IPO da SpaceX —, alta de 28% em relação ao ano passado, segundo dados compilados pela Bloomberg. Já a emissão de dívida ligada à IA superou US$ 300 bilhões desde novembro em vários mercados de crédito, ajudando a empurrar a atividade para perto de recordes em 2026, segundo estrategistas do JPMorgan.

Gasto monumental

Para Jim Chanos, veterano gestor vendido e fundador da Chanos & Co., SpaceX, Magnificent Seven, Anthropic e OpenAI prometem um volume monumental de gastos para o qual o mercado não verá retorno — ou sequer segurança de retorno — por anos.

“Estamos falando de algo que está a cinco, dez anos ou mais de distância. Então teremos esse gasto gigantesco de capital sem muita coisa concreta para mostrar, exceto para quem vende as pás e picaretas”, disse ele em entrevista, em referência aos fornecedores que lucram com uma corrida do ouro sem precisar garimpar.

“As pessoas apostam em mudanças realmente transformadoras, não só na forma como vivemos, mas também em um salto de produtividade e de crescimento do PIB. Eu não tenho tanta certeza disso”, afirmou.

As dimensões do plano de financiamento de Musk são difíceis de apreender, e as comparações históricas ainda ficam aquém do que a SpaceX pretende fazer. Mas, embora ninguém use essa analogia para sugerir algo ilegal ou impróprio por parte de Musk ou da SpaceX, a própria comparação com a Union Pacific soa precisa demais para alguns céticos.

Alguns associam a Union Pacific ao escândalo conhecido como Credit Mobilier. Segundo White, de Stanford, embora a Union Pacific tivesse muito capital, boa parte do dinheiro foi desviada para a Credit Mobilier, empresa de construção responsável pelo projeto e controlada por pessoas ligadas de dentro.

“O fato de a Union Pacific estar associada à maior fraude do século 19 — a Credit Mobilier —, que foi basicamente um grande esquema de contratação sob o guarda-chuva da construção da ferrovia, é um pouco irônico, não é?”, disse Chanos.

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