Com taxa de 12,5% por trabalho forçado, Trump tenta reconstruir muro tarifário global

O presidente Donald Trump anunciou uma nova rodada de tarifas sobre produtos importados pelos Estados Unidos, que vai substituir taxas impostas a dezenas de países que expiram nesta sexta-feira. A medida faz parte das estratégias do presidente americano para reconstruir seu muro tarifário global.

A nova sobretaxa foi baseada em uma investigação tarifária realizada em março deste ano pelo escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), contra 60 economias, acusando-as de não proibir o uso de trabalho forçado em suas cadeias de suprimentos.

No início deste mês, o USTR divulgou um parecer preliminar propondo a aplicação de tarifas de 10% sobre importações de mais de uma dezena de parceiros comerciais dos Estados Unidos, entre eles Canadá, México e União Europeia, além de tarifas de 12,5% para mais de 40 países, incluindo Brasil, China, Índia, Japão e Coreia do Sul. Segundo o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, as medidas atingiriam cerca de 99% de todo o comércio exterior do país.

A iniciativa de impor taxas extras, segundo o jornal Financial Times, avançou apesar dos alertas de integrantes da equipe econômica de Trump, que temem os impactos de uma escalada da guerra comercial às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para novembro.

De acordo com fontes familiarizadas com o assunto, autoridades americanas elaboraram diferentes cenários para permitir que Trump impusesse novas tarifas assim que expirasse a sobretaxa global de 10% atualmente aplicada sobre importações.

Na segunda-feira, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre parte de produtos canadenses que chegam aos EUA alegando retaliação comercial. Antes disso, já havia elevado para 25% a taxa incidente sobre importações brasileiras, reforçando sua estratégia de usar tarifas como instrumento de pressão nas relações comerciais com parceiros dos Estados Unidos.

O FT lembra que a nova ofensiva ocorre após a Suprema Corte dos EUA derrubar, em fevereiro deste ano, as chamadas tarifas recíprocas que haviam sido instituídas depois do anúncio do chamado “Dia da Libertação” (“Liberation Day”), feito por Trump em abril de 2025, alegando que o presidente havia excedido sua autoridade ao usar uma lei de emergência da década de 1970 para impor as sobretaxas.

Agora, a equipe de comércio do presidente deve passar a aplicar essas medidas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 (Trade Act of 1974), estratégia que permitirá a Trump contornar o uso dos poderes emergenciais que foram considerados ilegais pela Suprema Corte.

Especialistas ouvidos pelo The Wall Screet Journal consideram que esse novo fundamento jurídico é muito mais sólido e resistente a contestações na Justiça. Assim, Trump poderá manter as tarifas impostas desta vez com base na Seção 301 por tempo indeterminado.

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Ainda assim, diz o WSJ, analistas do setor avaliam que, no curto prazo, a carga tarifária total dos Estados Unidos não deve sofrer mudanças significativas sob o novo regime legal. Ao elaborar as tarifas substitutas, integrantes do governo reafirmaram que pretendem manter alíquotas em níveis semelhantes aos das medidas que estão prestes a expirar.

Paralelamente, porém, o governo americano conduz outras investigações que poderão fornecer respaldo jurídico para impor alíquotas mais elevadas no futuro, aponta, por sua vez, o FT.

Nos bastidores, altos integrantes do governo vêm aconselhando Trump a preservar a estabilidade nas relações comerciais e a respeitar os acordos firmados por Washington com diversos parceiros em 2025, que previam a redução de tarifas, segundo duas fontes com conhecimento das negociações.

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A tentativa de reativar a guerra comercial ocorre em um momento de crescente tensão entre Estados Unidos e Irã. A escalada do conflito já provoca volatilidade nos mercados globais de energia e aumenta o risco de uma ampliação das hostilidades para toda a região.

A guerra vem impondo custos crescentes aos consumidores americanos, ressalta o jornal, apontando que, nesta semana, o preço da gasolina voltou a ultrapassar US$ 4 por galão, alimentando o descontentamento da população com o aumento do custo de vida e ampliando a pressão política sobre a Casa Branca.

Falando ao FT, Michael Smart, diretor-gerente da consultoria Rock Creek Global Advisors, enfatizou que o cenário político tende a limitar novas medidas agressivas elos EUA na área comercial. Ele lembra que o principal fator que influencia o nível das tarifas é o ambiente político e a preocupação com o poder de compra da população, “o que restringe a capacidade de Trump de intensificar a guerra tarifária”.

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