- junho 18, 2026
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Na última quarta-feira (17), o Federal Reserve e o Banco Central do Brasil tomaram decisões de política monetária que, a princípio, não surpreenderam o mercado. O BC americano manteve as taxas, enquanto o Copom (Comitê de Política Monetária) cortou a Selic em 0,25 ponto percentual (p.p.), em linha com a projeção da maior parte dos investidores. Contudo, as sinalizações que foram dadas geraram certo desconforto aos mercados ao apontarem cenários “abertos” sobre os próximos passos de política monetária, o que também deve gerar mais volatilidade no mercado.
Na tarde de ontem, o Fed deu um passo significativo na reformulação de sua estratégia de comunicação ao encurtar o comunicado, abandonar o chamado forward guidance (orientação futura) e sinalizar uma postura mais dependente da leitura dos mercados. Para o Goldman Sachs, JPMorgan e Morgan Stanley, isso aumenta a incerteza sobre a trajetória de juros e pode elevar a volatilidade dos ativos de risco pelo mundo.
O comitê manteve a taxa de juros na faixa de 3,5% a 3,75%, em decisão unânime, mas o destaque ficou concentrado na mudança de linguagem em meio à nova gestão do Fed, de Kevin Warsh. O comunicado foi “significativamente encurtado” e passou a enfatizar apenas pontos essenciais, como o fato de que a inflação “permanece elevada” e o compromisso com a estabilidade de preços, conforme aponta o Goldman Sachs.
A simplificação do texto veio acompanhada de uma mudança ainda mais estrutural: a retirada completa do forward guidance. Para a equipe de economistas do JPMorgan, o Fed eliminou qualquer tentativa de guiar explicitamente o mercado, substituindo-a por uma mensagem genérica e sem detalhamento da função de reação da política monetária.
Os economistas do Morgan Stanley reforçaram, em relatório, essa leitura, apontando que o movimento marca uma transição deliberada para “menos comunicação e mais reforma”, com o banco central adotando um discurso mais enxuto e menos comprometido com sinalizações futuras.
Na prática, o Fed passa a deslocar o eixo da comunicação: sai de um modelo altamente orientativo — que ancorava expectativas — para outro mais reativo, no qual os mercados são estimulados a interpretar diretamente os dados econômicos. Segundo o banco, a autoridade monetária quer que investidores “façam o dever de casa” e formem suas próprias expectativas, sem depender de guias explícitos do banco central.
Essa mudança também ficou evidente na coletiva do novo presidente do Fed, Kevin Warsh, que evitou fornecer explicações adicionais sobre a decisão ou o cenário. Tanto JPMorgan quanto Morgan Stanley destacam que não houve esclarecimento sobre pontos fundamentais, como o grau de restritividade da política ou a resposta do Fed a pressões inflacionárias persistentes.
Ao mesmo tempo, Warsh reforçou sua oposição ao forward guidance, defendendo que os mercados funcionam melhor quando reagem aos dados, e não às sinalizações do banco central. Essa visão, segundo o Morgan Stanley, reflete uma crença de que preços de mercado são fonte importante de informação para a própria política monetária.
No novo regime, instrumentos como o “dot plot” (gráfico que representa as projeções de cada membro do FOMC para a taxa básica de juros dos EUA) ganharam protagonismo como principal forma de orientação implícita. Apesar da menor comunicação verbal, as projeções quantitativas indicaram um viés mais hawkish (duro, mostrando preocupação com a inflação) do que o esperado, com divisão entre manutenção e alta de juros em 2026 e revisões altistas ao longo da curva.
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Ainda assim, há sinais de que até mesmo esse instrumento pode perder relevância. Os economistas do Morgan Stanley ressaltam que o próprio Warsh não submeteu projeções e demonstrou ceticismo em relação ao uso do Summary of Economic Projections (SEP), levantando dúvidas sobre sua permanência como peça central da comunicação do Fed.
Outro elemento-chave da mudança é a criação de cinco “força-tarefas”, incluindo uma dedicada à comunicação. Para os analistas, essa iniciativa reforça que o Fed não apenas ajustou sua mensagem pontualmente, mas pode estar diante de uma revisão mais ampla de sua estratégia institucional.
Na leitura do Morgan Stanley, a consequência direta desse novo modelo é um ambiente de maior volatilidade. Com menos guidance e maior autonomia para investidores interpretarem os dados, tende a haver menos consenso de mercado e mais surpresas de política monetária. Isso pode levar a oscilações mais intensas nas taxas e nos ativos financeiros, não só dos EUA, mas globalmente.
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O JPMorgan também destaca que, na ausência de uma função de reação clara, discursos de membros do Fomc ganharão relevância na formação de expectativas, deslocando o foco da comunicação para canais mais fragmentados. Já o Goldman Sachs chama atenção para o pano de fundo macro que acompanha essa mudança: revisões altistas nas projeções de inflação, com núcleo e índice cheio mais elevados, além de leve piora nas perspectivas de crescimento — fatores que aumentam a complexidade da comunicação e justificam, em parte, a preferência por maior flexibilidade.
E o Copom?
Enquanto isso, no Brasil, o Copom reduziu a Selic para 14,25% ao ano, mas o comunicado mostrou menos conforto com o quadro inflacionário e manteve aberta a discussão sobre o ritmo final da flexibilização.
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Para Gino Olivares, economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management, ainda que a decisão de cortar os juros fosse esperada pela maioria do mercado, ela não era unanimidade. Isso porque, dada a deterioração do cenário de inflação, surgiram muitas dúvidas sobre o espaço para o Comitê dar continuidade ao processo de calibragem da política monetária iniciada em março. E justamente os recados do comunicado trouxeram um cenário ainda incerto, o que traz mais incertezas ao mercado.
De forma geral, aponta Olivares, a mensagem do comunicado é de uma preocupação maior com o cenário corrente e prospectivo para a inflação. Para ele, a leitura dos primeiros seis parágrafos (de um total de doze) sugeriam um Comitê preparando o caminho para encerrar o ciclo de cortes de juros. “Porém, na segunda metade do texto, o colegiado introduziu algumas mudanças no comunicado que confundiram mais do que esclareceram”, aponta.
Em situações de incerteza, avalia, é uma boa prática dos bancos centrais não se amarrar a uma determinada trajetória da taxa de juros, citando que, na semana passada, o Banco Central Europeu (BCE) utilizou essa mesma prática para justificar que a decisão de elevar a taxa básica em 25 pontos-base seria a mais apropriada na maior parte dos cenários que eles consideravam plausíveis. Não se trata de tomar a decisão que seria o melhor no cenário que se considera mais provável, mas de tomar a decisão que ofereceria resultados razoáveis na maior parte dos cenários que é possível identificar.
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“Acreditamos que o Copom decidiu seguir por esse caminho”, avalia. Porém, aponta que o racional do exercício não foi muito bem explicado e pareceu desconectado com a descrição do cenário apresentada na primeira metade do texto. “Colocando de outra forma, a impressão que deu é que o exercício apresentado foi uma espécie de contorcionismo para, mesmo tendo explicitado uma preocupação maior, continuar com o processo de redução da taxa de juros”, complementa Olivares.
A XP Investimentos também destaca a comunicação difusa do BC. Os economistas da casa apontam que as projeções do Comitê para o horizonte relevante atual (4T27) sugeririam não haver espaço para corte na taxa Selic. Contudo, o Copom disse que, ao fazer isso, a inflação ficaria abaixo da meta no trimestre seguinte (1T28). Assim, estendendo o horizonte em um trimestre, o Comitê encontrou espaço para um corte adicional. Para os economistas que assinam a análise, o argumento faz sentido, mas ainda sugere que o espaço para mais reduções de juros é praticamente nulo com o atual conjunto de informações.
“Nosso cenário-base antecipa um ajuste final em agosto de 0,25 ponto percentual (p.p.), o que deixaria a taxa Selic em 14,00% até (pelo menos) o 1T27. Mas, considerando a deterioração recente do cenário de inflação, uma pausa nos atuais 14,25% também parece bastante provável”, apontam os economistas, liderados por Caio Megale.
Economistas do BTG Pactual destacaram que o comunicado deixou de sinalizar preferência clara pela continuidade do ciclo de calibragem, diferentemente de abril, quando a comunicação indicava que a sequência do processo ainda era o cenário mais provável.
“Nesse sentido, a barra para a continuidade do ciclo subiu em relação à reunião anterior, em linha com o que esperávamos. A forma como isso foi feito, contudo, foi menos clara do que imaginávamos: o Copom não condicionou de forma explícita os próximos passos à evolução das projeções e das expectativas”, afirmaram em relatório após a decisão.
Segundo Igor Monteiro, CEO da EqSeed, a leitura do comunicado do Copom é de que o Banco Central iniciou uma redução gradual dos juros, mas sem sinalizar pressa. “Houve espaço para o corte agora, porém ainda não há segurança suficiente para assumir um ritmo contínuo de redução da Selic”, diz em nota.
Neste cenário, Olivares, da Azimut, acha prematuro entender a decisão como uma mudança na função de reação do Copom ou, “pior ainda, uma postura de maior leniência com a inflação”. Assim, esperará a Ata da reunião, a ser divulgada na próxima terça-feira, incorpore os devidos esclarecimentos sobre o exercício que fundamentou a decisão de continuar com os cortes.


